Última entrevista de Paulo Schroeber

Rock ‘n' Roll

 

Ultima entrevista de Paulo Schroeber

 

Salve nação Heavy Metal!

A guitarra essa semana está de luto, pois perdemos um gênio da magrela que tocava solos perto do impossível de se tocar, por técnicas muito elaboradas e musicalidade impressionante, Paulo Schroeber morreu de miocardiopatia (problema no músculo do coração) na ultima segunda feira (24/03/2014) aos 40 anos. Deixa Mãe, Irmã, e um sobrinho que tinha como filho o Gumgum, sua onomatopeia para o som da guitarra.

 

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Segue abaixo a sua ultima entrevista para o pessoal do Guitar Tech nela Paulo descreve sobre fatos de sua carreira, seu início na guitarra, e alguns projetos atuais, também da certos detalhes de sua grave doença cardíaca que o retirou de uma das principais bandas de heavy metal da atualidade

1-) Conte um pouco sobre seu início na guitarra, quais eram as dificuldades, e diferenças para os dias atuais?

Me interessei pela guitarra depois de ter escutado, quando tinha 15 anos alguns lps que o namorado da minha irmã costumava trazer na época, para ouvir lá em casa com ela e por acaso no meio daqueles discos coloquei o Restless and Wild do Accept.

Ouvi aquela sonoridade e realmente foi um choque para mim, pois não costumava ouvir nada em termos de música na época, pois não tem nenhum músico em minha família, ou meu pai ouvia música alemã ou Tchaikovsky.

Alguns dias depois já tendo ouvido umas cem vezes o mesmo disco conheci outras bandas e disse para ele trazer mais coisas, aí fiquei conhecendo AC/DC, Black Sabbath, Iron Maiden, Scorpions e por aí vai. Como moro no interior do RS não havia muitos recursos na época, e fiz de tudo, pois como era bem novo até de uma porta de madeira tentei construir uma guitarra…

Depois de muita insistência consegui que meu pai me comprasse um violão, e muito tempo depois uma guitarra Golden usada, na época até uma boa marca, que usei por alguns anos, e muito, mas muito tempo depois ainda consegui convencer ele a me comprar um pedal de distorção.

No início só fazia barulho mesmo, e meu pai por irritação daquela zoeira toda me fez ir atrás de um professor na marra, e realmente foi a melhor coisa que eu fiz, pois não havia informação alguma, era tirar de ouvido o que se ouvia nos discos, ou fazer algumas aulas ou nada.

Lembro que a gente ia em alguns ensaios de algumas bandas de rock, e mesmo gostando de um som mais pesado sempre ficava olhando muito o que o guitarrista fazia e tentava copiar em casa.

Hoje em dia há uma acessibilidade muito rápida e fácil por causa da internet, em termos de material, mas em minha modesta opinião, mesmo assim, como dei muitas aulas, praticamente toda minha vida, acho que muita gente toca muito parecido com toda essa nova geração devido a esse fator, e também mesmo com tanta informação por aí, mesmo assim, 99,9% das pessoas que me procuram ainda tem o conceito, por exemplo de uma coisa simples como os modos gregos de pensar de uma maneira errônea.

Então há os seus prós e contras em minha opinião.

2-) Atualmente, sobre equipamentos, o que tem usado? Costuma variar muito de uma situação ao vivo, para uma gravação?

Com o Almah , tocava com qualquer coisa que a casa oferecia, e uma pedaleira da Line 6 HD 500. Em shows perto daqui de onde eu moro que tenho condições de levar meu equipamento uso um Power Amp Simulclass 90/90, um Pré Triaxis ambos da MesaBoogie, um Lexicon Mpx-1 para efeitos ligados em um Power Conditioner da Furman para estabilizar a voltagem, ligados novamente em uma caixa Marshall Lead 1960/A.

Gosto do Triaxis, pois é um aparelho muito versátil, apesar de ter alguns problemas de manutenção, e o esquema do volume dos parâmetros é um pouco mal projetado. Mas sempre acabo voltando para ele pois tenho outros prés aqui também, um Sansamp Psa-1 e um Recto pré da Mesa, que nunca deram problema.

Nas gravações, atualmente uso um Axe FX Ultra, da Fractal Audio, e antigamente o Recto Pré, com um simulador de caixas de alguns plugins, mas uso só o Axe atualmente, pois é um ótimo aparelho.

3-) Algum projeto, ou parceria que gostaria de mencionar?

Minha prioridade é gravar algumas músicas de meu cd instrumental seja em clipe ou vídeo, e estou bastante focado nisso. Junto ao trabalho instrumental tenho trabalhado com meu parceiro Niuton Paganella, em um projeto puramente metal, que sempre quis fazer, com influências das bandas clássicas que todo mundo conhece que logo vou soltar alguma coisa para o pessoal conferir.

Quero terminar a divulgação do cd da Hammer 67, talvez gravaremos mais um clipe, pois devido a minha doença tive que parar pela metade, que é uma praia mais alternativa, e finalmente a longo prazo regravar as músicas de minha banda antiga de Tecnhical Death Metal, a Fear Ritual, onde toda a parte das guitarras já está gravada.

Estava praticamente voltando ao Almah também, mas infelizmente tive uma recaída muito grande, tomei medicamentos que me receitaram que não eram apropriados para mim, então infelizmente minha volta a banda não vai ser possível no momento, pois estava me dedicando praticamente todo o meu tempo livre para lembrar de todas as músicas que eu tocava, e estava indo extremamente bem, mas acho que depois dessa não é mais para ser mesmo, pois estava com total certeza de minha volta devido a minha grande melhora. No momento estou me recuperando novamente devido a forte reação alérgica que tive aos medicamentos, e infelizmente dependo dos profissionais do plantão hospitalar, caso passe mal, que na maioria das vezes não tem o preparo necessário para lidar com uma doença como a minha.

4-) Ultimamente o que tem estudado e escutado?

Estou totalmente focado em minhas músicas instrumentais de meu disco solo, para registrar em vídeo, quando achar que já trabalhei na divulgação delas o suficiente, volto a rotina normal, de anteriormente, que estava estudando Hybrid Picking, um pouco de Displacement, e Tapping com 4 dedos, que são técnicas razoavelmente novas para mim, e é claro continuar estudando Fusion, troca de acordes e fraseado.

Costumo escutar bandas muito pesadas, como Periphery, Meshuggah, as coisas que o Devin Townsend faz também, algumas coisas mais calmas como Deftones, guitarristas de fusion e jazz, de rock e Metal posso citar o Tosin Abasi, John 5, estou ouvindo muito as suítes de Cello de Bach, ouço muito o mestre Segóvia, principalmente ele tocando Bach. E por aí vai…pois ouço uma variedade de estilos dependendo da situação e de minha vontade

5-) Sobre internet e informática, no seu ponto de vista, quais os benefícios que esses recursos podem trazer para os estudantes e profissionais da guitarra?

O benefício é algo lógico, a velocidade de informação que o estudante tem a sua disposição.

Porém mesmo assim noto que aqueles que começaram estudar um instrumento apenas pela internet tem muitos problemas com postura de mãos, e em certos assuntos, como existe muita informação acabam se perdendo no meio do caminho, acho que para um aluno iniciante é essencial fazer aulas com um bom professor, pois ele serve como guia e principalmente ensina a ter um foco no meio de tanta informação.

Não posso deixar de mencionar também, que a maioria, como existem muitas tablaturas disponíveis, não sabem tirar de ouvido uma música simples, e geralmente as tablaturas contém muitos erros.

Mas para um nível intermediário, a avançado a internet, para o estudante é de importância fundamental, é só saber usar da forma correta, eu mesmo uso bastante, para procurar novas formas de tocar e ouvir coisas novas interessantes, e passo todo o meu material de aula em um pendrive ou cd, para depois o aluno imprimir o que é necessário.

6-) Ao longo de sua carreira você fez parte de bandas importantes como Almah e Burning in Hell, como foi trabalhar com essas bandas e quais os principais pontos que vieram a agregar na sua experiência como guitarrista profissional?

Na Burning Hell tive algumas participações em algumas das composições do primeiro disco, foi uma coisa rápida, pois o guitarrista estava se desentendendo com a banda e entrei só para tapar o furo que ele deixou, mas logo ele voltou e se entenderam, pois ele combinava muito e gostava muito do estilo que eles tocavam naquele momento.

No Almah, foi um pouco mais direcionado, pois na época estava meio sem fazer nada, apenas dando algumas aulas, e foi bacana trabalhar e me focar em apenas uma coisa, pois tudo teve que ser feito muito rápido, e foi legal também para conhecer de verdade como funciona o lance comercial da coisa, venda de shows, assessoria, essas coisas. Para ser sincero fiquei um pouco desapontado com todo o negócio, pois existem muitas bandas boas no Brasil que não tem o reconhecimento que merecem, mas acredito que logo essa situação aos poucos vai mudar, que é o exemplo do Hibria, que vem crescendo muito nesses últimos tempos.

E foi legal tocar em grandes festivais, ter uma estrutura razoável para tocar Metal, e ter meu trabalho um pouco mais reconhecido. Porém nem tudo são flores, há lugares com pouca estrutura também e se o evento não for bem divulgado pelos responsáveis as pessoas não comparecem, mas isso também não cabe a mim julgar e sim ao público gostar ou não da banda e ir aos shows.

7-) Seu trabalho instrumental intitulado Freak Songs, recentemente recebeu boas críticas de revistas e veículos de comunicação relacionado a guitarra, o cd é muito completo e diversificado trazendo elementos de rock/ metal, jazz, fusion e música clássica, você como autor das peças, ao que você atribui essa riqueza em elementos e sonoridade tão distintas?

Sempre me preocupei em ser um guitarrista diversificado, e procuro sempre, apesar de meu foco ser no rock e metal estudar e ouvir outros estilos de música, pois já toquei muita coisa diferente no decorrer desse tempo. Principalmente depois que tive algumas aulas de Jazz, deixando claro que nunca vou ser um guitarrista de Jazz, pois isso exige em minha modesta opinião uma formação já precoce no estilo, minha maneira de pensar mudou completamente, com relação a colocar as notas em diferentes acordes e muitos outros aspectos. E convidei propositalmente o Rodrigo Zorzi, que é um músico fenomenal, para gravar as baterias, justamente pela sua fluência e facilidade em tocar música brasileira e jazz para ter umas linhas de baterias de uma pessoa que convive sempre com esses estilos, isso fez toda a diferença.

Com relação a música clássica, sempre convivi com o estilo, pois comecei tocando violão clássico, e acho que daí veio uma fluência natural quando estava compondo algumas músicas no estilo.

8) Quais os planos e projetos para o futuro?

É difícil para mim querer fazer planos para o futuro, pois como disse anteriormente, devido aos altos e baixos de minha doença, a pessoa aprende a viver um dia de cada vez.

O que posso dizer é que estou focado em um som específico de meu disco instrumental para registrar em vídeo, e sempre algum dia da semana eu e o Paganella se reunimos para compor alguma coisa. Estava focado em algumas músicas do Almah, mas infelizmente dei uma recaída, então não vai ser possível voltar, era isso em que eu estava trabalhando mais, pois como disse não dá para fazer muitos planos, e citei na terceira pergunta algumas outras coisas que ando fazendo, mas que estão em segundo plano no momento.

9-) Agradecemos a entrevista, e para terminar, pedimos que deixe uma mensagem para seus fãs e leitores do blog… Fica aqui o nosso muito obrigado!

Primeiramente gostaria de agradecer a oportunidade de expôr algumas de minhas idéias, mesmo que elas venham a mudar daqui a um tempo, espero ter sido útil as pessoas que se interessaram em ler a entrevista e terem tirado proveito de alguma de alguma situação a qual passei para repensar alguns valores e atitudes, e sempre agradecer o carinho com que sou tratado pelo pessoal que curte meu trabalho.

Muito obrigado, muito boa sorte e um grande abraço a todos vocês.

 

Paulo Schroeber

Paulo Schroeber (Almah) -To my father – Instrumental

Meus sentimos a família Schroeber por essa grande perda, mas com certeza está em um ótimo lugar tocando ao lado de gênios do nosso rock n’ roll!

Até semana que vem!