ROCK, SÃO PAULO E LIBERDADE

Especiais Rock ‘n' Roll

Para quem passou a infância e adolescência sob um regime de controle, de medo e sem poder se expressar, o ano de 1986 foi realmente um ano novo. Alguém que tivesse 16 para 17 anos, entrando na Universidade com a cabeça fervilhando de ideias não poderia encontrar um ambiente tão propício para se apaixonar por 3 ideais perpétuos como o Rock, o São Paulo F.C. e a Liberdade.

O futebol sempre fez parte da minha vida, mas aquele São Paulo de 1986 foi o primeiro Super Tricolor que vi jogar. Com Gilmar no gol, Oscar e Dario Pereyra, Silas, Muller, Pita e Careca, se tornou imbatível e base da seleção brasileira.

De fato, o campeonato de 1986 só terminou em fevereiro de 1987, em uma batalha épica contra um time espetacular do Guarani de Campinas que contava com Evair e João Paulo. Foram dois jogos o primeiro no Morumbi (1×1) e o segundo no Brinco de Ouro (3×3), no tempo normal, graças a um golaço de Careca aos 14 minutos do segundo tempo DA PRORROGAÇÃO. Nos pênaltis vencemos por 4×3.

Um time que mesclava garotos como Muller, Silas e Bernardo (Mariliense, como eu) com jogadores consagrados como Oscar, Dario Pereyra, Pita e o astro Careca. Sob o comando de um técnico experiente, glorioso como jogador e que, no dia do seu aniversário, conquistou o segundo título Brasileiro para o Tricolor mais importante do mundo. Pepe foi magistral.

Acompanhar aquele campeonato desorganizado e interminável não foi fácil, mas foi inesquecível. Cada vitória, cada empate nos passava de fase e empurrava a equipe para a grande final. Não havia corpo mole, nem grandes salários. Não sabíamos da vida privada do jogador, nem redes sociais para eles ostentarem a riqueza que não possuíam. Havia brio, força de vontade e uma gana por vitórias. E a nós torcedores restava a paixão. Restava não!! Sobrava!!

Naquele ano de 1986 eu abracei o São Paulo e nunca mais me afastei. Não torço para outro clube.

Mas na imensidão da mente do jovem havia espaço para mais. Poder dizer o que nunca foi dito, cantar letras censuradas, ler livros proibidos e ouvir a música mais poderosa da história, também em nossa língua, com frases tão confrontadoras ao regime. Regime que me ensinou a ficar calado. Mas agora eu tinha voz e violão.

O show dos Titãs foi o primeiro grande encontro com o Rock. Ouvir discos, fitas K7 ou rádios FM era uma experiência. Mas sentir a terra tremer com a bateria de Charles Gavin, a guitarra do Marcelo Fromer e cantar com Branco Mello e Nando Reis era bem diferente. Depois vieram Legião Urbana, Plebe Rude, Capital Inicial, Hojerizah, Paralamas, Violeta de Outono e tantos outros.

No tempo em que telefones residenciais eram tão raros, não havia internet e nem celulares, o ato de se expressar era mais complexo. Havia conversa, trocas de ideias, convencimento. A inteligência era algo necessário, assim como o conhecimento. Não havia o Google para nos explicar de onde as bandas tiravam suas letras.

Ler era fundamental. Obter conhecimento, também. Renato Russo inspirou muita gente a conhecer Bandeira, Bauhaus, Van Gogh, Mutantes, Caetano e Rimbaud. Não havia Ctrl C e Ctrl V para nos ajudar nas redações. Os ignorantes eram visíveis sob qualquer luz.

Para mim, o rock não era rebeldia, nem revolução. O rock é a forma de expressão. É a música que meus tímpanos imploram. São as letras que parecem ter sido escritas pelas minhas ideias e que fluem no pensamento que me identifico. Mais alguém, além de mim, já não concordou ´ipsis literis´ com as frases abaixo?

 

Perfeição – Legião Urbana

Vamos celebrar a estupidez humana
A estupidez de todas as nações
O meu país e sua corja de assassinos
Covardes, estupradores e ladrões
Vamos celebrar a estupidez do povo

Nossa polícia e televisão
Vamos celebrar nosso governo
E nosso Estado, que não é nação
Celebrar a juventude sem escola
As crianças mortas

Celebrar nossa desunião
Vamos celebrar Eros e Thanatos
Persephone e Hades
Vamos celebrar nossa tristeza
Vamos celebrar nossa vaidade

Vamos comemorar como idiotas
A cada fevereiro e feriado
Todos os mortos nas estradas
Os mortos por falta de hospitais
Vamos celebrar nossa justiça
A ganância e a difamação

Vamos celebrar os preconceitos
Por volta dos analfabetos
Comemorar a água podre
E todos os impostos

Queimadas, mentiras e sequestros
Nosso castelo de cartas marcadas
O trabalho escravo
Nosso pequeno universo

Toda hipocrisia e toda ostentação
Todo roubo e toda a indiferença
Vamos celebrar epidemias
É a festa da torcida campeã

Vamos celebrar a fome
Não ter a quem ouvir
Não se ter a quem amar
Vamos alimentar o que é maldade
Vamos machucar um coração

Vamos celebrar nossa bandeira
Nosso passado de absurdos gloriosos
Tudo o que é gratuito e feio
Tudo que é normal

Vamos cantar juntos o Hino Nacional
(A lágrima é verdadeira)
Vamos celebrar nossa saudade
E comemorar a nossa solidão.

Vamos festejar a inveja
A intolerância e a incompreensão
Vamos festejar a violência
E esquecer a nossa gente

Que trabalhou honestamente a vida inteira
E agora não tem mais direito a nada
Vamos celebrar a aberração
De toda a nossa falta de bom senso
Nosso descaso por educação

Vamos celebrar o horror
De tudo isso com festa, velório e caixão
Está tudo morto e enterrado agora
Já que também podemos celebrar
A estupidez de quem cantou esta canção

Venha, meu coração está com pressa
Quando a esperança está dispersa
Só a verdade me liberta
Chega de maldade e ilusão

Venha, o amor tem sempre a porta aberta
E vem chegando a primavera
Nosso futuro recomeça
Venha, que o que vem é perfeição

 

Poder cantar, gritar, trabalhar, amar e viver sem medo que minha opinião, minhas poesias, minha atitude e meu pensamento não me levaria para a cadeia, foi a experiência de encontrar a liberdade. De ter fé que não existe liberdade sem democracia.

Naquele ano de 1986, eu abracei o Rock e nunca mais me afastei. Não escuto outra música

Naquele ano de 1986 eu abracei a Liberdade e nunca mais me afastei. Só sei viver livre.

 

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